segunda-feira, julho 10, 2006

A Revolução Francesa

Paris, 14 de Julho de 1789. Passa da meia-noite do dia 13 quando as massas populares camponesas cruzam os portões da cidade com a ajuda das massas urbanas. É uma multidão desnorteada, que saqueia o que pode comer. Tudo que parece com luxo ou ostentação é tomado ou destruído.

As tochas iluminam rostos cansados e sofridos. O tumulto alastra-se rapidamente e ninguém sabe precisar ao certo o que pode acontecer. Paus, pedras, espadas, foices, ancinhos, tudo que pode servir como arma é usado. Os ricos, os padres e os aristocratas são arrancados de suas casas e igrejas e justiçados sumariarnente e todos gritam: “Enforquem! Enforquem!”.
Mas de onde vem tudo isso? Quem era essa gente que invadiu Paris e derrubou o trono absolutista e alterou a velha ordem? De que forma cidadãos comuns transformaram-se em revolucionários?

É, de verdade, uma história muito longa, de uma trajetória bem acidentada e que determinou o nascimento de uma nova etapa do processo histórico ao elevar a burguesia ao poder, encerrando o ciclo do antigo regime na Europa Ocidental.

É possível certamente falar em Revoluções Francesas, isto é, na conjugação de quatro momentos que não eram articulados na origem.

O 1º é a revolução proposta pela burguesia com um projeto político definido, uma filosofia social e urna proposta econômica liberal. Eram só 500 mil em 26 milhões e não tinham força numérica da política para tomar o poder e excluir os aristocratas. Tem o projeto mas não a base para executá-lo.

O 2º é a revolta aristocrática contra a nova postura da monarquia. Aparentemente voltam-se contra ela porque seus privilégios foram diminuídos, mas com uma razão bem mais profunda - eles temiam as massas e o rumo que a revolta camponesa poderia tomar. Começam a descobrir mais identidades do que diferenças com os burgueses, principalmente a propriedade privada, bastando para isto abrir mão de seus privilégios estamentais e políticos, para, pelo menos, conservar as sua terras.

Mas é verdadeiramente nas massa que reside a força do movimento revolucionário, a alavanca d processo que oferece a base de apoio que sustenta a aplicação do projeto político da burguesia. A massa tinha duas faces e cada uma delas forma as outras duas revoluções.
O 3º e a revolução do campo. O grito da miséria e dos desvalidos; dos excluídos da terra e que estavam dispostos a tê-la, comprando-a com o pouco que conseguiram juntar ou tomando-a assi que fosse possível.

“Imagine o leitor camponês do século XVIII... ... apaixonadamente enamorando da terra, ao ponto de gastar todas as suas economias para adquiri-la... Para completar essa compra ele tem primeiro de pagar um imposto ... ... finalmente, a terra é dele; seu coração nela esta enterrado com as sementes que semeia... ... Mas novamente seus vizinhos o chamam do arado obrigam-no a trabalhar para eles sem pagamento. Tenta defender sua nascente plantação contra manobras dos senhores de terra; estes novamente o impedem. Quando ele cruza o rio, esperam-no ara cobrar uma taxa. Encontra-os no mercado onde lhe vendem o direito de vender seus produtos; e quando, de volta a casa, ele deseja usar o restante do trigo para sua própria alimentação... ... não pode tocá-lo enquanto não tive-lo moído no moinho e cozido no forno do mesmos senhores de terras. Uma parte da renda e sua pequena propriedade é gasta em paga taxas a esses senhores... ... Tudo o que fizer encontra sempre esses vizinhos em seu caminho... e quando estes desaparecem, surgem outros com as negras vestes da Igreja, para levar o líquido das colheitas...”

(Leo Huberman – História da Riqueza do Homem. P. 157 ZAHAR.ED)


Mas o campo se esgotou e os feudos nada conseguiam gerar. Sem recursos técnicos a terra não produz e uma seca de quatro anos agrava a crise ainda mais, intensificando a fome e a miséria para 90% dos franceses. A situação chegou ao seu limite. O relato de La Bruyére chega a ser assustador.

“Vêm-se certos animais ferozes, machos e fêmeas, espalhados pelos campos, negros, lívidos e todos queimados pelo sol, agarrados à terra que revolvem e remexem com incrível obstinação; possuem algo como uma voz articulada e quando se equilibram sobre os pés, mostram um rosto humano; e, com efeito, são homens. A noite, retiram-se para covis, onde vivem de pão negro, água e raízes; poupam aos outros homens a canseira de semear, lavrar e recolher para viver e, assim, merecem que não lhes falte esse pão que semearam.”

(Jean de La Bruyére, escritor francês do Antigo Regime, descreve a situação dos camponeses.)

Eram 21 milhões no total e 17 milhões permaneciam como servos. O prolongamento da seca até 1789 produziu o quadro clássico do caos e então, tudo começou. 10 milhões transformaram seus instrumentos de trabalho em armas, mataram seus senhores, incendiaram as propriedades, saquearam o que havia e puseram-se em movimento. Rumaram para Paris. Porque Paris? Ninguém sabe explicar ao certo. Guiados por uma espécie de mão invisível, pegaram as estradas que levavam à Paris. Alguns desistiram; milhares morreram no caminho, de fome ou subnutrição; cinco milhões chegaram em Paris naquele 13 de Julho.
por acaso pensavam que o lado de dentro dos muros da cidade apresentassem algo melhor? Acreditavam que sim. Mas não havia nada melhor; encontraram apenas o outro lado da mesma miséria.

O 4º movimento é o da rua dos “sans-culottes”, dos desempregados, dos miseráveis que vagavam pelas mas. Eram multidões sem freios e sem nenhum respeito por qualquer. pessoa ou de qualquer instituição. Moravam nas ruas, morriam de peste e morriam’de fome.

Muita gente vive ou se esforça por viver de maneira mais incrível. Restif encontre todas oitos pelo monos um daqueles que sobrevive provisoriamente é morte pela tome; um vive descolando das paredes manifestos que vende a merceeiros, se da folhas simples, ou a papeleiros, se de folhas coladas uma sobre a outra, usando para se aquecer os pedaços que não pode vender. Uma velha andrajosa que dorme embriagada no meio da rua, com a cabeça apoiada um saco cheio de cães e gatos mortos, com que se alimentará, depois de lhes ter vendido as peles. Paris, a cidade-luz de noite é um inferno de escuridão, miséria e crime. Os poucos lampiões existentes, em noites de lua cheia, ficam apagados por economia. (...)

Nesse mundo de injustiças, misérias, ferocidade, é grande a fermentação, como e todos os períodos de crise. “Tremo cada vez que vejo o povo excitado, porque o conheço, e sei que seu ódio é eterno e só espera a ocasião... Se es era acreditasse em poder ousar, transformaria tudo.” (...)

Restif de La Bretanhe

‘Num lugar encontramos toda uma rua seguindo o urso de um canal, porque dessa forma era possível conseguir porões mais profundos, sem o custo de escavações, porém, destinados não ac armazenamento de mercadorias ou de fixo, mas residência de seres humanos. Nenhuma das casas essa rua estava isenta de cólera... Não há ventilação nem esgotos, e famílias inteiras morando um canto de porão ou numa água furtada.”

Restif de La Bretanhe

Foi esta gente que abriu os portões de Paris para que os camponeses entrassem.
Foi esta gente que abriu os portões de Paris para que os camponeses entrassem.
Para os que estavam do lado de dentro, a perplexidade. Para os que chegavam de uma marcha de dez dias era estar perdido por não encontrar o que sempre haviam esperado.
Olhavam para o céu, olhavam na sacada. Uma figura majestosa parecia querer falar-lhes: era George Danton. Aos poucos aquietaram-se, prestaram atenção. Quando enfim se fez silêncio, Danton falou:
‘Povo da França, somos um pais miserável que herdou a fome e a desigualdade dos nobres e dos padres. Nada lhes posso prometer apenas pedir jamais deixem a frente deste prédio, vocês são a garantia do sucesso da revolução. Por ora, olhem aquele prédio, a bastilha. Derrubem o símbolo da infâmia e de toda a opressão!
O povo francês obedeceu. Derrubou a bastilha. Cada um quis fazer parte da história e derrubar, muitas vezes com as próprias mãos, o símbolo de uma época que estavam ajudando a encerrar. Pobre povo francês. Não percebeu que não havia diferença entre a fome feudal e a fome capitalista; que não havia diferença entre entregar o produto de seu trabalho à um senhor feudal decadente ou ter o suor de seu rosto apropriado por um empresário capitalista. Morar em uma pequena casa improvisada dentro de um feudo não era diferente de viver em uma favela na periferia de uma cidade industrial. Já foi escrito com sabedoria — miséria é miséria em qualquer canto.
Naquele momento todos achavam que a injustiça e a opressão estivessem banidas para sempre. Enquanto derrubavam a bastilha pensavam na liberdade que se estava conquistando, na igualdade que seria construída e na fraternidade que iodos fariam acontecer.
Não irá demorar até que o povo perceba que a sedução do discurso não será confirmada pelas medidas daqueles que tomaram o poder. Liberdade, igualdade e fraternidade tinham significados totalmente diferentes para os que seguiram os passos indicados pelos seus criadores. A liberdade tinha limites, aqueles ditados pelo poder econômico, a igualdade era parcial e a fraternidade não passava de uma fórmula política destinada a unir o 3º Estado contra os outros dois.
Esta era a lógica da revolução: o pensamento do 3º Estado.


O “Terceiro Estado”

Que é o Terceiro Estado? Tudo. Que tem sido agora na ordem política? Nada. Que deseja? Vir a ser alguma coisa...

O Terceiro Estado forma em todos os setores os dezenove/vinte avios, com a diferença de que ele é encarregado de tudo o que existe de verdadeiramente penoso, de todos s trabalhos que a ordem privilegiada se recusa a cumprir. Os lugares lucrativos e honoríficos são ocupados pelos membros da ordem privilegiada...

Quem, portanto, ousaria dizer que o Terceiro Estado não tem si tudo o que é necessário para formar uma nação completa? Ele é o homem forte e robusto que tem um dos braços ainda acorrentando. Se suprimíssemos a ordem privilegiada, a nação não seria algo de menos e sim alguma coisa mais. Assim, que é o Terceiro Estado? Tudo, mas um tudo livre e florescente. Nada pode caminhar sem ele, tudo iria infinitamente melhor sem os outros...

Uma espécie de confraternidade faz com que os nobres dêem preferência a si mesmo para tudo, em relação ao resto da nação. A usurpação é completa, ele verdadeiramente reinam...

É a corte que tem reinado e não o monarca. É a corte que faz e desfaz, convoca e demite os ministros, cria e distribui lugares, etc. Também o povo acostumou-se a separar nos seus murmúrios o monarca dos impulsionadores do poder. Ele sempre encarou o rei como um homem tão enganado e de tal maneira indefeso em meio a uma Corte ativa e todo-poderosa, que jamais pensou em culpa-lo de todo o mal que se faz em seu nome.

(SIEYÉS. E. J. Qu’est-ce que le Tires Etat? Paris, 1789, p. 1-4, apuo ROWEN. H. From absolutism to revolution. Nova Iorque, Macmiilian 1963, p. 186.)


A instalação da burguesia no poder ainda parecia refletir uma aparência de unidade na fusão dos quatro movimentos já citados.

São abolidos todos os privilégios feudais, bem como aqueles que derivavam do nascimento, destruindo as bases da sociedade estamentaI bem como abrindo o caminho para que a visão burguesa sobre a propriedade fosse colocada em prática.

Ao mesmo tempo, consagra-se uma assembléia nacional constituinte que parece confirmar uma nova etapa filosófica e política para uma revolução marcada por forte emoção e por intensa movimentação popular. Os particularismos e as tendências diferenciadas dos “clubes políticos” criam antagonismos insuperáveis, discussões sérias que revelarão o quanto era heterogêneo o 3º Estado.

Proclama-se a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão cujo resumo pode ser feito da seguinte forma:

  • Os homens nascem iguais e livres e assim permanecem quanto a seus direitos.
  • O objetivo das associações políticas é a inalienáveis do homem.
  • Esses direitos são: a liberdade, a propriedade, a segurança e a resistência à opressão.
  • A liberdade civil e política consiste no poder de fazer o que quer que não prejudique os outros.
  • A lei só deve proibir as ações prejudiciais à sociedade e ninguém deve ser acusado, preso ou detido, a não ser em casos determinados pela leia e de acordo com os formas por ele prescritas.
  • Ninguém deve ser punido a não ser de acordo com alei promulgada antes da ofensa.
  • Ninguém deve ser perseguido por suas opiniões em qualquer campo, desde que sua expressão não perturbe a ordem pública estabelecida pela lei.
  • Cada cidadão pode falar, escrever e publicar livremente seus pensamentos e opiniões desde que se reponsabilize pelo abuso dessa liberdade, nos casos determinados pela lei.
(Extraído de: Mirim Moreira Leite. Iniciação à história social contemporânea. 3ª. Ed. São Paulo, Cultrix, 1980. p. 196.)


Está é a observação exata que demostra o afastamento cada vez maior do imposto pela burguesia ao povo. As medidas contidas no texto da constituição de 1791, eram excludentes e a burguesia, já instalada no poder, não precisa mais do povo. Pelo menos era o que estava colocado de forma absolutamente transparente. Marat, o porta-voz da classe trabalhadora mais pobre, assim se expressou:

"No momento da Insurreição o povo abriu caminho por sobre todos os obstáculos pela força do número; mas por muito poder que tenho conseguido Inicialmente, foi por fim derrotado pelos conspiradores da classe superior, cheios de astúcia, artimanhas e habilidade. Os integrantes educados e sutis da classe superior a principio se opuseram aos déspotas; mais isso apenas pa voltar-se contra o povo, depois de se ter insinuado na confiança e usado seu poder, para s colocarem na posição privilegiada da qual o déspotas haviam sido expulsos. A revolução é feita e realizada por intermédio das camadas mais baixas da sociedade, pelos trabalhadores artesãos, pequenos comerciantes, camponeses, pela plebe, pelos infelizes, a que os ricos desavergonhados chama de canalha e a que os romanos desavergonhadamente chamavam de proletariado. Mas o que as classes superiores ocultam constantemente é o fato de que a Revolução acabou beneficiando somente os donos de terras, os advogados e os donos dos bancos. Os ricos continuam ricos e os pobres continuam pobres.”

(Manifesto do Jornal o Amigo do Povo)

O povo marcha para o poder, armado que estava para defender o país das invasões estrangeiras. Outra vez os movimentos das massas podem, pela força do número e não da ideologia, impor sua vontade. Diante da nova crise institucional o rei tentou deixar a França para liderar uma reação aristocrática que partiria das nações vizinhas no sentido de sufocar a Revolução. E preso em Varennes.

Uma vez preso, o rei não Unha outra opção voltou para a capital com a família Ao chegar e Paris diante da Prefeitura, Maria Antonieta banhada em lágrirnas, pegou a mão de seus til se dirigiu aos degraus da carruagem. Ofuscado pela luz do Só!, o rei entrecerrou seus olhos teu com dificuldades a escadinha d carruagem, que já tinha sido atacada pela multidão furiosa.
Vindos de todos os arredores de Paris centenas de camponeses armados acompanhava carruagem. Os telhados das casas estavam repletos de curiosos para ver a cena de humilhação da família real. Nos muros, haviam dizeres como este: “Aquele que aplaudir o rei ser espancado” O povo se alegrava em ver o rei de volta a Paris, naquelas condições. Luís XVI, por sua vez, estava certo de que o seu sonho, de continuar reinando, havia chegada ao fim.

Noticia do Jornal Lê Cardelller

E todos gritavam: Fora! Fora! Fora!
O batalhão de 500 soldados de Marselhe entrou em Paris em julho de 1792, cantando em voz alta aquele que seria transformado no Hino Nacional Francês. Rapidamente as massas o aprendera e o repetia para acirrar o ardor da luta.

HINO NACIONAL DA FRANÇA

Allons enfants de la Patrie,
Le jour de glorie est arrivé.
Contre nous de Ia tyranie,
L ‘étendart sanglant est levé.
Entendez-vous, dans les campagnes,
Mugir ces féroces soldats?
lis viennentjusque dans nos bras
Egorger nos flís, nos compagnes.
Aux armes citoyens!
Formez vos batalllons 1
Marchons, marchons!
Qu’un sang impur abreuve nos silions 1

(Filhos da Pátria, marchemos,
O dia da glória chegou,
O estandarte ensangüentado da tirania
Contra nós se alça.
Ouvis nos campos rugir
Esses ferozes soldados?
Vêm eles até nós
Degolar nossos filhos, nossas mulheres.
As armas cidadã os!
Formai os batalhões!
Marchemos, marchemos!
Nossa terra do sangue impuro se saciará!)


O povo chega ao poder , derruba o governo burguês. Em novembro de 1792, Robespierre. líder dos jacobinos, justifica a ação de aprofundamento do processo revolucionário.

“Cidadãos, quereis uma revolução sem revolução? Qual é este espírito de perseguição que veio rever, por assim dizer, aquele que rompeu nossas cadeias? Mas como podemos submeter a m julgamento seguro os efeitos que essas grandes comoções podem ocasionar? Quem pode assinalar o ponto preciso onde devem ser contidas as vagas de insurreição popular? A este preço, que poderia sacudir o jugo do despotismo? Por que, se é verdade que uma grande nação não pode ser conduzida por um movimento, e que a tirania não pode ser atingida senão pela porção de cidadãos que se encontram mais perto dela, como estes últimos ousarão atacá-la, se, após a vitória, os delegados, chegados das partes afastadas [do país] podem mostrá-los como responsáveis pela duração ou violência da tormenta política que salvou a pátria? Eles devem ser enxergados como detentores de procuração tácita pela sociedade toda. Os franceses, amigos da liberdade, reunidos em Paris no mês de agosto (de 1792) assim agiram em nome de todos os departamentos. E preciso aprová-los ou condená-los inteiramente. Fazer um crime de algumas desordens, aparentes ou reais, inseparáveis de uma grande agitação, será puni-los por sua devoção. Eles teriam o direito de dizer a seus juizes: se desaproveis os meios que empregamos para vencer, deixai-nos os frutos da vitória. Retomeis vossa constituição e todas as vossas s leis antigas, mas restituís a nós o preço de nossos sacrifícios e de nossos combates. Restituís nossos concidadãos, nosso irmãos, nossas crianças, que morreram pela causa comum.”

(Paulo Miceli – As Revoluções Burguesas Livro. Discutindo a História. p. 81/82)


O rei é julgado e condenado à morte. Começa a república e uma nova Constituição é aprovada pela Convenção Nacional.

“Uma nova Constituição u tanto radicalizada e, até então, retardada pela Gironda foi proclamada. De acordo com este nobre, todavia acadêmico, documento, dava-se ao povo o sufrágio universal, o direito de insurreição, trabalho ou subsistência, e – o mais significativo - a declaração oficial de que a felicidade de todos eram o objetivo do governo e de que os direitos do povo deveriam ser não somente acessíveis, mas também operantes. Foi a primeira constituição genuinamente democrática proclamada por um Estado moderno.”

(Eric Hobsbawm – A Revolução Francesa –p. 41)


Os problemas eram muitos porque a França estava mergulhada em um período agudo da crise com elementos combinados e apontando para o desastre:
  • crise produtiva intema em função da falta de investimentos
  • retirada do discreto apoio material da Inglaterra.
  • guerras contra os invasores externos na razão direta do temor que os estados absolutistas tinham e expansão do modelo revolucionário pela Europa feudal e absolutista.
O quadro é muito grave e o poder dos jacobinos começa a não ter respostas rápidas para a crise.

“Os jacobinos, ao assumirem o poder, souberam canalizar todo o potencial e a energia revolucionária das massas, porque tiveram a sensibilidade política de perceber que, sem a participação dos sans-culottes e o atendimento às suas reivindicações, a guerra não podia ser ganha e a revolução ser salva. Não vaciliram em pôr em prática os únicos instrumentos políticos que, naquele momento, podiam manter a unidade nacional em frangalhos: o terror e a ditadura. com efeito, como conseguir impor, de u lado, o controle geral dos preços, o racionamento, o recrutamento geral em síntese, a economia de guerra e, de outro, como conseguir e eliminação da contra-revolução interna, sem o terror e a ditadura?”

(Jean Soboul – A Revolução Francesa)


Era preciso estimular ainda mais o ardor cívico e procurar manter as massas populares conscientes de seu poder no processo e da importância da mobilização em tomo das conquistas democráticas e da tentativa de promover uma sociedade igualitária e mais justa.
Paralelamente, grandes líderes populares como Marat, Robespierre, Sains-Just e Danton, através de jornais, panfletos e discursos apaixonados, traziam o povo em permanente estado de alerta e mobilização, na defesa de seus ideais democratas. Em junho de 1793, jacobinos e sans-culottes afastaram os girondirios do poder e instalaram um governo comprometido com as aspirações da massa.

Evidentemente a alta burguesia não entregou o poder passivamente, o que de certa maneira explica a ditadura imposta pelo partido popular. Através de uma nova Constituição, importantes medidas foram tomadas em favor dos interesses do povo: confisco e venda das terras dos nobres emigrados; tabelamento de preços para os produtos de primeira necessidade; descentralização do poder, com a organização das comunas populares, entre outras providências.
Objetivando garantir as conquistas, foram criados o Comité de Salvação Pública, responsável pelo Exército e pela administração do país, e o Tribunal Revolucionário, encarregado de prender, julgar e punir todos aqueles que, dentro da França, se opusessem às medidas jacobinas. A atuação deste tribunal resultou em uma verdadeira caça às bruxas, conhecida como TERROR — dezessete mil execuções em catorze meses.
Mais uma vez Robespierre justifica a ação revolucionária.

“O povo é bom, mas seus representantes podem ser corrompidos. É na virtude e na soberania do povo que se devem buscar as garantias contra os viços e o despotismo do governo.”

(Robespierre)

A base para o movimento popular revolucionário será dos “sans-culottes”, uma verdadeira tropa de choque para por em prática as decisões tomadas pelos membros do comitê revolucionário a partir de convenção nacional.

Michel Peronnet oferece maiores sobre este segmento liderado por Saint-Just.

Esse termo e empregado, durante o período revolucionário, sobretudo a partir de 1792, para designar as massas populares urbanas, mais especialmente as dos subúrbios do leste de Paris o de Saint-Antoine, na margem direita, e o Saint-Marcel, na margem esquerda do Sena.
Politicamente, os sans-culottes formam armadura das seções parisienses e dos comitês revolucionários, os quais a organização do terror atribui um papel. Eles forma a massa de manobra das grandes jornadas parisienses de 10 de agosto de 1792, e de 2 de junho e de 5 de setembro de 1793. Ele se engajam nos exércitos revolucionários.

Socialmente, os sans-culottes representam citadinos que vivem de seu trabalho, seja como artesãos, seja como profissionais de ofícios; alguns, depois de uma dica laboriosa, se tornam pequenos proprietários na cidade, e usufruem as rendas de um imóvel. Portanto, o sans-culotte não deve ser confundido com o indigente que ele quer socorrer. Este grupo de pequenos proprietários pensa que a difusão da propriedade permitirá a instauração da felicidade graças à igualdade: “Um dia virá... em que o nível da lei regulamentará as fortunas... não deverá ser permitido que um cidadão possua mais de uma quantidade de arpents de terra”, declara um dos oradores sans-culottes, Sylvain Marechal. consumidores urbanos, os sans-culottes são sensíveis às dificuldades de abastecimento, às crises de viveres(...). Ele exige taxação dos gêneros. “É preciso fixar invariavelmente os preços dos gêneros de primeira necessidade, os salários d trabalho, os lucros da empresa a os ganhos de comércio”, pede a Seção do Jardin des Plantes que acaba de alterar o nome para seção Sans-colottes (22 de setembro de 1793). O programa econômico do sans-culattes permanece vago e surge como uma aspiração à igualdade entre os pequenos proprietários independentes, possuindo meios de satisfazer às suas necessidades – “Que o máximo das fortunas será fixado... que o mesmo individuo só poderá possuir um máximo... que ninguém possa manter para alugar mais terra do que é necessário para uma quantidade de charrua determinada... que o mesmo cidadão só possa te um estabelecimento comercial ou uma oficina...”. Este amor pela igualdade liga-se á república e a virtude, (...).
Os sans-culoftes se reconhecem exatamente ela prática das virtudes republicanas e de igualdade: dirigem-se aos outros chamando-os d cidadãos e cidadãs(...). Sua aparência é popular usam calça, vestimenta de trabalho, e não calção roupa de ostentação do aristocrata, uma camisa ma jaqueta curta, a carmanhola; usam o barrete frígio, símbolo antigo da escravidão libertada arcado pela insígnia nacional; usa permanentemente o sabre e o pique, porque ao homem armado pode defender a revolução “contra s aristocratas, os realistas, os modernos, o intriguistas... todos esses celerados”.

Como não tinham um programa econômico definido e nem contavam com recursos para investimentos, a crise foi tomando vulto e chega
próxima de uma guerra civil. As revoltas multiplicam-se e os tribunais de salvação pública aplicam uma repressão violenta, com muitas condenações à guilhotina.
O processo revolucionário se aprofunda. As massas despertam de um sonho letárgico e passam a clamar pela sua justiça, feita de revolta e sangue. Revolta contra a repressão que julgavam banida e sangue daqueles que por séculos lhes impuseram a dor e o sofrimento. Ouvia-se naquela época: Os tambores rufam, as velhas tricotam e as cabeças rolam”. Isto justifica a frase de Robespierre “A revolução só será vitoriosa quando o último aristocrata for enforcado com as tripas do último padre na torre da última igreja".

O momento mais agudo do processo pode ser identificado a partir do decreto da convenção diante da guerra contra os invasores.

A partir de agora, até que os inimigo sejam expulsos do território da República, todo os franceses estão em regime de recrutamento permanente para os serviços do exército. Os jovens irão ao combate, os homens casados forjarão as armas e transportarão os gêneros de subsistência, as mulheres farão as tendas de campanha, as roupas e servirão em hospitais, os velhos serão levados às praças públicas pa excitar a coragem dos guerreiros, pregar o ódio aos reis e a unidade da República.” Este é o teor do famoso decreto votado pela Convenção em 23 de agosto de 1793, quando a Montanha inaugurou seu governo. Por ele se tem uma idéia bastante clara do estado de espírito reinante, tudo sempre agravado pela crise que insistia em atingir França.

Gritando “Guerra aos tiranos!”, “Guerra aos aristocratas!”, o Terror, novamente, assaltou nação. A Convenção, isto é, os adeptos de Robespierre, eram acusados de hipnotizadores do povo, por fazê-lo enxergar soluções que de fato nunca existiram. A guilhotina voltou ao trabalho fazendo com que, apenas nos últimos três meses de 1793, 177 cabeças fossem separadas dos corpos de seus respectivos donos...

O governo revolucionário acumulava vitórias contra a resistência interna e contra as forças estrangeiras que ainda ameaçavam a fronteiras nacionais. Mas, apenas reduzidos esse perigos, chegou à vez das lutas ente as facções que disputavam o poder na Convenção: de um lado, alinhavam-se os defensores das medidas de exceção; de outro, aqueles que consideravam necessário desaquecer o Terror. A vitória dos primeiros significava que a liberdade continuaria sendo apenas um recurso da retórica revolucionária, pois a revolução estava longe d cumprir suas principais promessas. A vitória do segundos representava a volta à cena dos inimigos nunca derrotados da evolução. Em ambos os casos, a revoluções estava condenada, devendo voltar-se, agora, contra seu porta-vozes, o que também significava afastar-se definitivamente dos sans-colottes.

Paulo Miceli – OP. Cit. p. 86

O error não tinha freios, acabou atingindo as próprias lideranças da revolução e rompendo a aliança entre Danton e Robespierre. Preso, Danton afirma: “A revolução é como Saturno que devora seus próprios filhos.”

Danton é condenado e executado. A revolução está dividida e o resultado não poderia ser outro.

“O terror, na sua última fase, tenta forja, roda., urna nova consciência, uma nova crença, aquilo que se poderia chamar uma nova cultura asse vai das de a Instituição de um novo calendário , que.parto de 22 de setembro de 1793, instituição do Ser supremo, que parece constituir a encadernação triunfal. da razão. Mas as vitórias internas e as militares, contra o estrangeiro, que o Terror consegue alcançar, anulam sua própria razão de ser. Porque o terror agora que a República está consolidada e que inimigo foi batido? Por que Saint-Just? Por que Robespierre?”

(A Revolução Francesa. GoL História. p.68)


O turbilhão revolucionário passou . as lideranças populares haviam se auto-destruído.

“Desmoulins, Danton, Robespierre, Sint-Just, Napoleão, os heróis e os partidos a e massas da grande Revolução Francesa... ... terminaram a tarefa da época – que foi a libertação da burguesia e a estabelecimento da moderna sociedade burguesa. Os jacobinos revolveram o terreno no qual o feudalismo tinha raízes,e abalaram a estabilidade dos magnatas feudais que nelas se apoiavam. Napoleão estabeleceu por todas a França as condições que tornaram possível o desenvolvimento da livre concorrência, exploração das terras depois da divisão das grandes propriedades e a plena utilização da capacidade de produção industrial do país. através da fronteiras por toda parte, fez uma derrubada das instituições feudais...”.

Leo Ruberman. Op. Cit.


O povo pensou, chegou a ousar; mas não obteve os dois fatores básicos para chegar ao poder e conservá-lo:
  • O 1º é o controle dos meios geradores da riqueza e as forças produtivas capazes de gerar o capital.
  • O 2º é uma ideologia própria que evite cisões internas e não faça concessões aos ricos e poderosos.
Termina a V experiência popular no poder e que antecipou um futuro que só chegaria 60 anos mais tarde com a democracia liberal.

Sem ideologia e sem lideranças o povo não teve como reagir ao golpe burguês.
No final do processo apenas eles levavam vantagens, como era natural em um processo liberal de revolução.

Depois que a Revolução acabou, foi a burguesia quem ficou com o poder político França quem ficou o poder político na França. O privil’’egio de nascimento foi realmente derrubado, mas o privilégio do dinheiro tomou seu lugar. “Liberdade, Igualdade, Fraternidade”, foi uma frase popular gritada por todos os revolucionários, mas que coube principalmente à burguesia desfrutar.

Leo Ruberman – OP. Cit.

A alta burguesia retorna ao poder mediante uma aliança com os militares. Todas as conquistas populares e democráticas foram anuladas. O programa liberal é trazido de volta com claros prejuízos para o povo. As conquistas populares e revolucionárias são anuladas.
Na fase do diretório a burguesia parte para resolver a questão estrutural da França com uma solução elementar — investir na produção. Segura com o apoio militar, ela investe no campo e nas cidades, resgatando a produção agrícola e iniciando o processo de industrialização.


“Em 1795, os novos donos do pode dissolveram a Convenção e votaram uma no constituição, pela qual o Poder Executivo passava ser exercido por um Diretório composto por cinco membros.

Corruptos e ladrões em sua maioria responsáveis pela instabilidade política, o membros do Diretório perderam a credibilidade pois provaram ser incapazes de solucionar o problemas nacionais.

No final do período a França estava abalada dificuldades econômicas, violência interna guerras externas.

Em 1799 a alta burguesia aliou-se Napoleão Bonaparte e, juntos, deram um golpe derrubaram o Diretório.

Para a burguesia golpista de 1799, general Napoleão era a homem capaz de, através e um governo forte e de uma firme liderança política, recuperar a ordem e a estabilidade do país, proteger a riqueza da burguesia e salva-la dos perigos das manifestações populares e jacobinas. Ao mesmo tempo, afastaria as ameaças de restauração monárquica.”

(História e vida – Cláudio e Nelson Pilleti)


No clima incerto e politicamente fragmentado em que governa o Diretório, o único ponto seguro constitui-se nas vitórias militares, cujos ecos logo chegam à Paris. Apesar de tudo, e com rapidez, a França amplia suas fronteiras incorporando Flandres e a parte espanhola de São Domingos. Há grandes problemas militares, mas há também homens à altura para resolve-los,. E dentre todos, em primeiríssimo plano, Bonaparte, que, ultrapassando os Alpes, penetra na Itália onde conduz uma campanha que culmina com uma série de fulgurantes batalhas estabelecendo não só as bases de um sucesso militar, mas fixando também as premissas daquela que seria, depois, sua carreira políticas.

História – OP. Cit .p.974

O consulado já representa um segundo estágio, uma espécie de ditadura encoberta por uma tríade controlada efetivamente por Napoleão Bonaparte. Fica evidente que a burguesia tem outros planos para o Exército — ele seria uma arma de intimidação para garantir a expansão dos mercados consumidores. De 1797 á 1799 o exército é convocado, treinado e profissionalizado, preparado para ocupar os países em volta da França, e forçar a Europa a fechar fronteiras e portos para os produtos ingleses e abri-las para os produtos franceses. De certo isto provocaria um terror generalizado na Europa e muitos países poderiam trocar a Inglaterra pela França como fornecedora sem a necessidade de uma invasão militar
Apoiado na força militar dos seus exércitos e em seu carisma de herói nacional, Napoleão assumiu o governo na França como autêntico ditador Sua ascensão ao poder significou um corte profundo nas aspirações das camadas populares e dos jacobinos, embora tenha restabelecido o voto universal para todo cidadão maior de 21 anos.
A nova Constituição, que estabelecia o regime de Consulado, disfarçava em parte a ditadura, pois na prática toda a vida política-administrativa francesa estava sob seu controle.

Cláudio e Nelson Pilleti – OP. Cit.

A trajetória do consulado não deixa dúvidas de que esta tosse apenas uma fase de transição para uma ditadura centralizada e que pudesse acomodar as instituições internas e unir toda a fumaça em torno de um projeto nacionalista para dar coerência ao esforço de guerra. O tempo todo a França tinha a consciência de um choque frontal coma Inglaterra, sobretudo após a decisão de industrializar o pais.
A trajetória deste processo segue uma seqüência lógica que parece previamente traçada para que a burguesia consolidasse suas conquistas e ganhasse a solução final para sua crise: exportá-la.

Apoiado especialmente pela alta burguesia pela crise média e pelo exército, Napoleão constitui um governo fortemente autoritário baseado em plebiscitos nacionais.
Através do sufrágio universal masculino o primeiro plebiscito foi realizado em dezembro de 1799 e constitui numa consulta ao povo para saber se ele aprovara ou não golpe de 18 de Brumário. O desprestígio do governo do diretório fez com que a aprovação fosse esmagadora.
em 1802 uma nova consulta plebiscitária autorizou Napoleão e transformar-se o primeiro cônsul vitalício e em 1804, um último e grande plebiscito transformou a França num império. O Primeiro Cônsul tornou-se Napoleão I, o imperador dos franceses.

Raimundo Campos – história Geral

Buscando consolidar as instituições burguesas, Napoleão centralizou a administração pública e destituiu as autoridades eleitas pelo voto popular. Criou o Banco da França, melhorou o governo foi elaborado o código civil, considerada a obra mais importante do seu governo.
O Código Civil unificou as leis francesas com o objetivo de assegurar conquistas burguesas como a regulamentação do direito da propriedade privada, a igualdade do cidadão perante a lei, o controle do empregado pelo patrão, a proibição de greves e de organizações sindicais etc.
Suas realizações internas e as vitórias militares externas consolidaram sua autoridade.

História e Vida – OP. Cit.

Na realidade Napoleão implantou uma ditadura e buscou respostas de apoio nas massas e ajustes em relação ao que a revolução propunha nas suas origens.

No pano da vida política, o período napoleônico caracterizou-se por um governo fortemente autoritário, ainda que popular junto a amplas camadas da população francesa.
Um dos primeiros grandes atos políticos do governo de Napoleão foi restaurar a união Igreja Estado, que havia existido antes da Revolução Napoleão mostrou aguda consciência da importância

Com a reestruturação do poder burguês, restava apenas colocar a máquina de guerra em movimento para que a França chegasse ao que se propunha. Além de dominar os países vizinhos com grande velocidade, Napoleão tinha um oponente definitivo — a Inglaterra — contra a qual não bastava o poder militar. A superioridade econômica e, sobretudo naval da Inglaterra colocava Napoleão em perigo, o maior de todos os perigos, o bloqueio naval.

Com a reestruturação do poder burguês, restava apenas colocar a máquina de guerra em movimento para que a França chegasse ao que se propunha. Além de dominar os países vizinhos com grande velocidade, Napoleão tinha um oponente definitivo — a Inglaterra — contra a qual não bastava o poder militar. A superioridade econômica e, sobretudo naval da Inglaterra colocava Napoleão em perigo, o maior de todos os perigos, o bloqueio naval.
A França usa todos os instrumentos possíveis para impedir que produtos ingleses cheguem em solo continental — decreta os confiscos de navios ainda em 1804 e finalmente os decretos de Berlim de 1806 e de Milão em 1807. Era o Bloqueio Continental.


A França ainda pretende neutralizar o comércio inglês no norte da África e na Rússia, seu grande desastre. A França consegue barrar o acesso inglês, mas não é capaz de substituir a Inglaterra no abastecimento aos países compradores.
Há ainda a questão de tentar aumentar sua frota na Europa para uma ação de equilíbrio contra o poder inegavelmente maior da moderna esquadra inglesa. Napoleão manobra desastradamente na Dinamarca e na Península Ibérica em busca de navios e comete seu erro fatal na Rússia, o cemitério da França expansionista.
Até 1810 a França levava ampla vantagem na guerra continental sem maiores obstáculos sérios, mas a resposta inglesa foi rapidamente implantada sob a forma de um pesado bloqueio naval, justamente no momento em que Napoleão invadia e tentava ocupar e Rússia.

A campanha da Rússia: Napoleão e derrotado pelo inverno

No verão de 1812, Napoleão marchou contra a Rússia com um poderoso exército de 600 000 homens. Sem oferecer resistência, os russos atraíram os franceses cada vez mais para o interior de seu território. ã medida que se retiravam, no entanto, iam levando tudo o que podiam incendiavam as casas, envenenavam a água e destruíam as plantações. Perto de Moscou, ofereceram resistência e tratavam uma batalha. Derrotados os russos permitiram que o inimigo ocupasse a capital. Logo que entraram em Moscou, porém, os franceses tiveram uma surpresa: a cidade estava deserta.
À noite, outra surpresa: Napoleão tinha acabado de se deitar quando foi acordado por uma luz muito forte que inundava o quarto. Olhou pela janela e viu que a cidade estava em chamas. O incêndio já se aproximava do Kremlin, onde Napoleão havia se instalado. vento soprava as chamas em direção ao castelo. O perigo era grande, pois os franceses haviam transportado para junto ao Kremlin 400 caixas de munições e, além disso, dizia-se que os russos tinham deixado no castelo um grande depósito de pólvora. De um instante para outro, o palácio podia se transformar num vulcão.

apesar de tudo, Napoleão não parecia disposto a abandonar o local. ele estava estupefato e, ao mesmo tempo, escandalizado: “Esta gente está queimando a si mesma!” Exclamava: “que raça de homens!” [...] São coisas que não vão além da imaginação: é uma guerra de extermínio, é ima tática atroz, que não tem a própria cidade! É uma inspiração do demônio... que feroz obstinação! Que povo! Que gente!”
quando as chamas finalmente baixaram, pouco mais restava do que as paredes energrecidas do Kremlin para abrigar as tropas invasoras. Na esperança de que os russos se rendessem, os franceses permaneceram durante mais de um mês entre as ruínas. Só no dia 22 de outubro resolveram iniciar a marcha de regresso.
Essa demora foi erro fatal, pois, muito antes de terem alcançado a fronteira, o terrível inverno russo caiu sobre eles. Então, os rio congelaram, surgiram montanhas de neve lamaçais profundos que quase impediam passagem. Além disso o frio tornou-se insuportável. Enquanto as tropas francesas se retiravam, os soldados russos surgiam dentre nevasca para atacar as topas exaustas e famintas. Cada manhã, ao retomar a fuga, o destroçado exército francês deixava para trás círculos de cadáveres à volta das fogueiras; da noite anterior m 13 de dezembro, os que sobreviveram atravessaram a fronteira da Alemanha. Estavam aIquebrados, famintos e quase loucos. Perto de 300 000 vidas foram sacrificadas nessa aventura na Rússia.

(Adaptado de: Francesco Malzi D’eril. II mondo di erl.3.ed Milhão, Antônio Vallardt, 1963 v2, p 276-7; Edward McNall Burns. História da civilização ocidental. 3.ed Porto Alegre, Globo, 1974. V. II. p632.)

O próprio Napoleão tem memórias escritas sobre o trágico desfecho de sua campanha na Rússia e demostrava a penúria e o estado precário de suas tropas. A tática do exército russo de deixar livre a entrada e bloquear o retomo conhecendo as condições do terreno e as adversidades do clima, junto com a eficácia do bloqueio naval inglês cobraram seu preço, conforme os relatos e testemunhos que ficaram da época.

A Campanha da Rússia

Quando Napoleão iniciou a campanha para invadir a Rússia, vários jovens franceses se apresentaram como voluntários. Mesmo contra a vontade da família eles se engajavam com todo o entusiasmo. Pierre, um desse voluntários, afirmava:
“– Não posso vegetar num vinhedo perto de Marselha, enquanto o imperador convoca sob a bandeira o maior exército do mundo. Dia e noite passavam diante da minha janela regimentos e mais regimentos c \a caminho da Rússia.”
Os soldados marchavam sempre so som de uma banda cuja música incitava ao ânimos impedindo-os de penar em problemas pessoias, além de ajuda-los a certar o passo com mais facilidade. Déssirée, amada de Napoleão, observa a passagem das tropas napoleônicas sob sua janela.
“A música do regimento ficou de repente com um som fanhoso, dando-lhe a impressão de trombetas e tambores metálicos. Havia muito tempo eu ouvia a Marselha sem acompanhamento musical. Apenas a cantavam. Cantavam-na os estivadores do porto, os operários e os empregados de bancos,. Agora as trombetas fazem vibrar a melodia sempre que Napoleão aparece”
Fouchet, chefe de polícia de Napoleão comenta com Talleyrand, ministro das Relações Exteriores, o avanço das tropas francesas mo território russo:
“– O exército francês entra nas aldeias, mas estas já foram incendiadas por seus habitantes e as tropas só encontram celeiros queimados. O exército francês abanca, de vitória em vitória, mas passa fome. O imperador se vê obrigado a mandar fornecer-lhe víveres das regiões de retaguarda. Estava longe de contar com esse inconveniente. muito menos contava com os ataques realizados no flancos pelos cassacos, que nunca se apresentam em batalha frontal. Mas o imperador espera alimentar bem suas tropas em Moscou onde o exército passará o inverno.”
Em dezembro de 1812, Napoleão assim relatava a Campanha da Rússia:
“– Este meu exército que no dia 6 ainda se mostrava tão glorioso, já no dia 14 era outro inteiramente, não tendo mais cavalaria, artilharia nem viaturas de transporte. O inimigo descobriu a marca da terrível desgraça que caiu sobre o exército francês e tratou de se aproveitar. Cercou as nossas colunas, lançando pelos flancos os cassacos...”
“Com estas palavras, Napoleão comunicava que o maior exército de todos os tempos fora aniquilados através dos desertos de neve da Rússia. Enumerava sobriamente as unidades das tropas,. Das centenas de milhares de soldados conduzidos por ele a Moscou, restaram agora por exemplo apenas quatro vezes 150 cavaleiros. Sim, reduzira-se a seiscentos cavaleiros a pomposa cavalaria de Napoleão.”

(Os trecho entre aspas foram extraídos de Annemarie Slinko Desirée. P. 410-411, 416 e 425-426)

De 1812 a 1815, a França é batida e o formidável exército francês está derrotado. A Revolução parece acabada. O sonho burguês parece desfeito.
Em Viena as forças da reação se organizam em um congresso cujo principal objetivo era restaurar a ordem monárquica. Bonaparte, preso e exilado na Ilha de Elba no Mediterrâneo, era alvo das chacotas e da ironia dos seus adversários em Paris. Um Bourbon se apodera outra vez do trono Luís XVIII.
Mas um líder como Napoleão não estava ainda acabado. Sem que ninguém esperasse ele fugiu espetacularmente de Elba e desembarcou em Nice. De lá seguiu para Lyon. A simples presença de Bonaparte em solo francês foi suficiente para suspender os trabalhos em Viena. Apavorado, Luís XVIII, enviou a Lyon perto de 10 000 soldados para prender o ex-imperador.
Chegando à cidade as tropas ao encontrar Bonaparte à frente de pouco mais de 120 soldados, ouvem-no dizer: O que tem soldados, não reconhecem seu imperador ? Ato contínuo, ao invés de prendê-lo, lhe rendem “vivas e hurras””, colocam-no à frente das tropas, voltam à Paris, marcham sobre Versailies, derrubam o rei e Napoleão e novamente o imperador dos franceses. Era o governo dos 100 dias. Mas muita coisa mudara nos meses em que estivera preso em Elba. Napoleão não tinha mas o apoio incontestável da burguesia francesa, não tinha mais o maior exército do mundo, não tinha mais o apoio do Deus Marte.
Após 100 dias é derrotado em Waterloo, no sul da Bélgica pelas forças coligadas da Inglaterra com a Santa Aliança. Era o epílogo da Revolução.
Uma revolução que mudou o mundo... Uma revolução onde o povo aprendeu que poderia deixar de ser coadjuvante para se tornar protagonista da história.

Revolução Francesa – Súmula para um caderno de anotações

– O Significado

Foi a mais importante Revolução burguesa produzida na Europa porque serviu de modelo para 72 outras revoluções que varreram a Europa até a metade do século XIX. Sua proposta liberal nacionalista uniu o povo e a burguesia contra a aristocracia.

II— Fatores Determinantes

A França estava mergulhada em uma crise produtiva no campo e na cidade. Os feudos estavam esgotados e eram incapazes de produzir, daí a fome para 90% dos franceses. As manufaturas estavam quebradas pela concorrência inglesa, fator preponderante para o desemprego em massa. Ao lado disto tudo a moeda perdeu poder de compra em
85%.
A monarquia absolutista sustentava uma desigualdade social profunda até tentar remover os privilégios da nobreza. A partir de 1785 a nobreza também e taxada. Diante da crise a monarquia adota a repressão, a censura e tortura.
O Estado francês faliu quando o tesouro acabou e nenhum país franqueava empréstimos ao Estado. Os gastos com as guerras e o luxo da corte destruiram a base do governo.
A ideologia revolucionária era liberal iluminista. A burguesia utilizava um discurso sedutor para atrair as massas. O lema da revolução é uma prova disto:
Liberdade entendida apenas como o fim dos laços da servidão.
Igualdade definida como o fim dos privilégios, sobretudo quanto ao pagamento de impostos.
Fraternidade que permitia a união do 3º Estado contra os outros dois.

III — Os Movimentos Sociais

E possível identificar dois pólos revolucionários. De um lado está a burguesia que pretende tomar o poder e institucionalizar o capitalismo e que conta com o apoio de muitos setores da nobreza
— os nobres temiam a revolta popular e aderiam à causa burguesa em troca da conservação de suas terras.
Do outro lado está o movimento popular sem uma ideologia e lutando pela sobrevivência. Camponeses e operários desempregados formam a massa. O episódio da Queda da Bastilha promove a união dos dois pólos.

IV — A Situação Politica em 1789

- Luís XVI convoca os Estados Gerais. De dentro desta assembléia nasce uma outra liderança pelo 30 Estado. Pouco antes desta revolução, esta assembléia ganha o status de Constituinte.
A assembléia era marcada pelo equilíbrio político até um golpe de centro-direita que excluia o povo na Constituição de 1791.

V — As Etapas

Das Assembléias ou Era das Instituições (1789 — 1792)

A alta burguesia instala-se no poder. Suprime os privilégios feudais e aprova uma constituição excludente. As principais medidas do período são:
a declaração dos Direitos dos Homens que supervalorizava a propriedade privada.
confisco das terras da Igreja que foram vendidas em leilão.
proibição aos sindicatos parlamentaristas com voto censitário, ou seja, a vitória dos girondinos.
O povo tinha sido armado para defender a revolução e quando se viu excluído, derruba o governo, dissolve a assembléia e coloca os jacobinos no poder.

DAS ANTECIPAÇÕES, ETAPA DAS ASSEMBLÉIAS ou ERA DO TERROR (1792 - 1794)

Corresponde ao período de maior aprofundamento no processo revolucionário. Os jacobinos chegam ao poder e são apoiados pelos “sans-culottes”. Pertencem a este período as seguintes medidas:

prisão e execução do rei com a consequente proclamação de República.
reforma agrária.
liberdade sindical revogando-se a lei de Chapellier.
fixação do preço máximo das mercadorias tabelamento dos preços.
o exército será popularizado com profissionalização. (carreira militar = salário).

O movimento popular enfrentou três graves problemas para os quais não obteve resposta:
1 — A falta de investimentos, uma vez que os ricos não aceitavam investir em uma revolução sobre a qual não tinham controle.
2 — O povo nunca chegou a formular uma ideologia própria, limitando-se a adaptar a ideologia burguesa aos objetivos populares.
3 - O movimento popular sofreu uma cisão interna com a quebra da aliança entre Robespierre e Danton. O terror destrói as lideranças populares.
· Sem ideologia e dividida a massa popular não consegue resistir ao golpe burguês. Termina a era democrática.

A ERA DAS CONSOLIDAÇÕES (1794 -1815)
A burguesia volta ao poder com um golpe de Estado que celebrava um acordo com os militares para conter prováveis reações populares — VOLTA AO PROGRAMA LIBERAL, ANULANDO TODAS AS CONQUISTAS POPULARES E DEMOCRATICAS.

Novamente as massas são excluídas, mas estão desmobilizadas.

Diretório: fase de reorganização econômica com a aplicação de investimentos no campo e nas cidades. Começa a INDUSTRIALIZAÇÃO com 7000 FÁBRICAS EM TRÊS ANOS. Poder político ainda descentralizado.

Consulado: volta a centralização com o processo de aparelhamento e treinamento de um exército bastante eficiente e bem armado.

Império: expansão da França entrando em rota de colisão com a Inglaterra — 10 GUERRA POR MERCADOS DO MUNDO:

1801—1807 » vantagem da França.
1807—1810 » equilíbrio Bloqueio Continental — qualquer país que fizesse comércio com a Inglaterra passaria a ser inimigo da França.
1810—1815 » derrota da França.

Notas:
  • A aliança com os militares também apresentou um lado econômico na medida em que o exército funcionaria como arma de intimidação para obter mercados exclusivos, isto é, sem a presença da concorrência inglesa.
  • Não havia militar capaz de deter o exército de Napoleão. O desastre da Rússia não deve ser atribuído a um erro de estratégia e sem ao poderoso bloqueio naval obtido após a incorporação da esquadra portuguesa.
  • processo de independência da América espanhola também está articulado a este processo geral de guerras napoleônicas. Fernando VII liberta área colônias com medo que caíssem nas mãos francesas.
  • a transferência da corte portuguesa para o Brasil foi uma manobra destinada a impedir que a família ral fosse refém da França e perdesse sua esquadra.

3 comentários:

Anonymous Anônimo disse...

Parabéns! Percebe-se que você é ótimo em português! Sua escrita e sua pontuação são ótimas!

5/10/07 13:42  
Anonymous Anônimo disse...

gostaria de saber o que era revolução francesa!pena que nessa droga de site não diz nada interessante!

14/4/08 22:07  
Anonymous Anônimo disse...

Pena que não fala nada sobre Jacques Solè.

30/5/08 10:07  

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